• Helena Morais Cardoso

Eu sou o que eu quiser ~ A perpetuação da vergonha nas mulheres.

A forma como vivemos em sociedade e os ciclos temporais são uma coisa estranha. Mas apesar de ser estranho não deixa de ser interessante observar e retirar algumas conclusões.


E hoje gostava de convidar-te a observar um tema que me é muito próximo e pessoal: quero falar do 'papel' das mulheres na nossa sociedade.


Basta recuarmos duas gerações para regressar à vida das nossas avós e concluir que, na sua maioria, estas mulheres não tinham um trabalho que lhes desse status social (algumas nem trabalhavam e muito provavelmente não eram elas que sustentavam a casa). Se andarmos ainda mais para trás, para a avó da nossa avó - provavelmente não sabes a sua ocupação, mas podemos desconfiar que estaria em casa a cuidar dos filhos, ou que se 'matava' a trabalhar na agricultura ou numa actividade qualquer em que era financeiramente explorada (a ideia deste post não é julgar esta mentalidade, até porque convém perceber que eram 'outros tempos').

O que quero que concluas comigo é que certamente muito poucas das nossas tetra-avós (para não dizer nenhumas) tinham uma carreira profissional.


Vamos então ao momento em que as primeiras mulheres definiram que queriam uma ocupação, uma carreira, igualdade financeira e já agora um bocadinho de liberdade. Acho que todas nós estamos familiarizadas com a coragem que deve ter sido precisa, na altura, para romper com a norma. É no mínimo, fascinante.

Todas sabemos da luta destas primeiras mulheres que exigiram uma mudança na forma como viviam a sua vida. Foram ostracizadas e apontadas como "ovelhas negras", sacrificaram outros sonhos e muitas vezes sentiram que não eram suficientes, que estavam "erradas" e na maioria dos seus dias sentiram-se julgadas. Mas conseguiram. E de repente abriu-se uma janela de oportunidade para todas as mulheres. E PUFF: hoje em dia, quase todas, somos mulheres de carreira. Virámos todas mulheres que têm uma possibilidade profissional. E obrigada. Mesmo, de coração obrigada.


Mas lamento, este post não é sobre a gratidão às mulheres pioneiras. ESTE POST É SOBRE O JULGAMENTO À MULHERES ACTUAIS.

Vejamos o meu caso:

Eu sou uma mulher que, em tempos, escolheu NÃO QUERER uma carreira.

Eu sou uma mulher que alegremente coloca a sua área relacional muito antes dos meus objectivos profissionais.

Eu sou uma mulher que considera (seriamente) não trabalhar para cuidar dos seus filhos.

Eu sou uma mulher mais parecida com as nossas trisavós do que com a mulher actual e sabes o que a sociedade faz com mulheres como eu?

Fazemos exactamente aquilo que fizemos às mulheres pioneiras: julgamos.

"Não és boa mãe porque tens que te realizar também a ti" "Mas se não tens uma carreira como te sustentas?" "Se não tens futuro profissional como te desafias?" "Não podes ficar tantos anos com as crianças porque estupidificas" "Não podes depender financeiramente de ninguém"

Desculpa? Posso sim, posso o que me apetecer. E esta é uma das partes mais sensíveis de gerir: se dependes do teu companheiro financeiramente.


- SHAME! -



Se por alguma razão tu te permites estar no colo financeiro da tua economia conjunta, em que tu trazes significativamente menos (ou nada), prepara-te para enfrentar o julgamento. "porque mulher que se respeita não vive à conta de ninguém". E tu não podes estar vulnerável a um homem, JAMAIS.


Há muita vergonha associada em estar em casa, como cuidadora, sem trabalhar, em ser 'dondoca', em perseguir 'um sonho profissional' quando alguém nos ajuda financeiramente, há muita vergonha em sermos cuidadas, porque agora somos independentes.

Resumindo: continua a haver uma perpetuação da vergonha nas decisões femininas.

E para mim, estejamos a trabalhar para ser a Partner da empresa ou estejamos em casa a fazer "sopas" e a lavar meias continuamos todas na mesma no que diz respeito ao julgamento.


Que recordemos que a nossa primordial luta não é se trabalhamos, se votamos ou se podemos abortar. A nossa maior luta é LIBERDADE. E esta liberdade passa por permitirmos a outras mulheres serem exactamente aquilo que ELAS quiserem - mesmo que isso não se enquadre no que tu achas que é ser livre. (Relê esta ultima parte, porque é mesmo importante)


Helena Morais Cardoso Terapeuta de AMOR-PRÓPRIO

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